quinta-feira, 31 de janeiro de 2008



De acordo com Gladwell, reduções na taxa de dependência explicam em parte os milagres económicos irlandês e asiático, assim como a elevada taxa de dependência é um fator crítico na determinação do desastre africano.

Irlanda

"Nas últimas duas décadas, a economia da Irlanda, que era uma das mais atrasadas da Europa Ocidental, passou a ser uma das mais fortes: a sua taxa de crescimento tem sido praticamente o dobro da restante da Europa".

"Não há falta de explicações. A Irlanda aderiu à União Europeia. Abriu seus mercados. Investiu bem em educação e na infra-estrutura económica. É um país politicamente estável com uma força de trabalho sofisticada e móvel".

"David Bloom e David Canning, economistas de Harvard, sugerem, porém, no seu estudo do 'tigre celta', que um facto demográfico singular pode ter sido da maior importância".

"Em 1979, as restrições com relação à contracepção que existiam desde a criação da Irlanda foram levantadas, e a taxa de natalidade começou a declinar. Em 1970, a irlandesa média tinha 3,9 filhos. Em meados dos anos 90 esse número foi reduzido para menos de 2".

"Como resultado, quando as crianças irlandesas nascidas na década de 60 se integraram na força de trabalho, não havia muitas crianças nas gerações logo atrás delas. A Irlanda viu-se repentinamente livre do enorme custo social de assistir, educar e cuidar de uma grande população dependente".

"Esta relação entre o número de pessoas que não têm e que têm idade para trabalhar é captada pela taxa de dependência. Na Irlanda, na década de 60, quando a contracepção era ilegal, havia dez pessoas muito velhas ou muito novas para trabalhar para cada 14 pessoas activas. Isso significava que o país estava a gastar uma grande percentagem dos seus recursos na assistência aos jovens e aos velhos. Em 2005, a taxa de dependência da Irlanda alcançou um recorde de baixa: para cada dez dependentes, o país tinha vinte e duas pessoas em idade de trabalhar. Essa mudança coincide exatamente com o extraordinário avanço económico do país".

Extremo Oriente e Índia

"Os demógrafos estimam que quedas nas taxas de dependência são responsáveis por cerca de um terço do milagre económico no Extremo Oriente no período do pós-guerra; esta é uma região do mundo que, no curso de vinte e cinco anos, viu sua taxa de dependência descer trinta e cinco por cento".

"Taxas de dependência podem também ajudar a responder à muito discutida questão de saber qual dos dois países – a Índia ou a China - tem um futuro económico mais brilhante. Nos anos 60, a China reduziu sua taxa de natalidade dramaticamente. A Índia, por outro lado, reduziu sua taxa de natalidade mais lentamente – seus melhores anos ainda estão por vir".

"A lógica das taxas de dependência opera obviamente de maneira igualmente poderosa na direcção inversa. Se uma economia beneficia de ter uma grande parcela de pessoas em idade de trabalhar, ela enfrentará tempos difíceis quando aquela grande parcela de pessoas se reformar e houver relativamente poucos trabalhadores para ocupar o seu lugar".

"Para a China, as próximas décadas serão mais difíceis. 'A China vai alcançar um pico com uma taxa de dependência de 1 para 2,6 pessoas entre 2010 e 2015', diz Bloom. 'Mas então voltará para um pouco acima de 1 para 1,5 por volta de 2050. Esta é uma mudança bastante dramática. Trinta por cento da população chinesa terão mais de 60 anos em 2050, o que corresponde a quatrocentos e trinta e dois milhões de pessoas'. Os demógrafos dizem que a China se encontra numa corrida para ficar rica antes de ficar velha".

África

"Os economistas há muito tempo dão atenção ao crescimento populacional, argumentando se ter um grande número de pessoas num país é uma coisa boa (estimulando a inovação), ou uma coisa má (levando ao esgotamento de recursos escassos). Mas uma análise das taxas de dependência diz-nos que o que é crítico não é apenas o crescimento da população, mas sua estrutura".

“ 'A introdução da questão demográfica reduziu a necessidade de se recorrer ao argumento de que há algo de excepcional em relação ao Extremos Oriente ou de idiossincrático com respeito à África', Bloom e Canning escrevem no seu estudo do milagre irlandês. 'Uma vez que a dinâmica da estrutura etária é introduzida no modelo de crescimento económico, estas regiões acham-se mais próximas de obedecer a princípios comuns de crescimento económico' ".

"Este ponto é importante. As pessoas falam sem parar sobre as deficiências políticas, sociais e económicas da África e simultaneamente de algum ingrediente cultural mágico possuído pela Coreia do Sul, Japão ou Taiwan que os levou ao sucesso".

"Mas a verdade é que a África Sub-Sahariana está presa numa debilitante taxa de dependência de 1 para 1 por décadas e esta proporção de dependentes frustraria ou complicaria o desenvolvimento económico em qualquer lugar. A Ásia tem visto, enquanto isso, sua carga demográfica se tornar extraordinariamente mais leve nos últimos anos".

Conclusão

"Conseguir uma taxa de dependência de 1 para 2,5 não torna o sucesso económico inevitável, mas, dada uma infra-estrutura económica e política razoavelmente funcional, certamente torna o sucesso muito mais fácil".

Posted by ... boost alpha às 10:05
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