segunda-feira, 16 de junho de 2008



O professor canadiano Henry Mintzberg não tem papas na língua quando se fala do modelo americano de MBA. Tido como um dos mais reputados investigadores e consultores mundiais na área de gestão de empresas, responsável pelo ensino de estratégia e organização na Universidade McGill (Canadá), já disparou várias vezes suas críticas ferozes contra a formação de líderes sem experiência de gestão. "É o formato enganador dos MBAs", diz.

Em entrevista, o professor Mintzberg fala sobre o futuro dos MBAs. "Bush tem um MBA de Harvard, nem por isso é um bom administrador", afirma.

Há algum tempo, o senhor vem fazendo severas críticas ao formato dos MBAs criado nos Estados Unidos. O que está errado na sua opinião?
Eu critico os MBAs que pregam a criação de gestores e líderes na sala de aula. Não acredito que se possa pegar numa pessoa sem experiência de gestão e promovê-la a gestor ou director. A função do MBA é aperfeiçoar as habilidades de negócios, de marketing e de finanças do executivo. E não valorizar as competências administrativas. O MBA é útil desde que essas pessoas não pensem que foram treinadas para serem gestores. Mas o que é pior é que os cursos fazem-nas acreditar que foram preparadas para resolver problemas complexos do dia para a noite.

E qual o papel do MBA então?
Deve ter programas mais voltados para a compreensão de um negócio do que para o aperfeiçoamento das habilidades de gestão. Ao trazer alguém que já tem experiência em gerir para um curso de MBA, torna-se importante desenhar outro tipo de programa. Mas se leva esse tipo de profissional para um curso tradicional de MBA, provavelmente ele encontrará um conteúdo que o ajudará a desenvolver as suas competências de negócios, e não a capacidade de gestão.

O senhor acha que o modelo actual desses programas deve-se perpetuar por mais alguns anos?
Esse formato vai durar enquanto as empresas contratarem seus profissionais apenas em função do título de MBA que eles possuem. Como disse, acho que eles não deveriam ser seleccionados pela habilidade que têm em gerir. Esse tipo de experiência pode ser adquirida posteriormente, na prática. Mas se continuarem a serem contratados pelas suas habilidades de negócios, vejo que esse formato enganador dos actuais MBAs deverá sobreviver. Infelizmente, aqueles que desenvolvem programas de MBA são bastante intransigentes e por isso, não vejo mudanças à médio prazo. A minha esperança é que as pessoas consigam distinguir as diferenças entre os programas de MBA e o IMPM, que visa aperfeiçoar as competências de gestão de quem já tem experiência. Se por um lado, um MBA é voltado para jovens profissionais, sem experiência, o IMPM é indicado exclusivamente para profissionais que já são gestores.

E como seu curso contribui para que os executivos aperfeiçoem as suas habilidades?
Ele é voltado para a gestão prática. O mais importante é que esses executivos reflitam e olhem para a sua forma de gerir. No nosso curso, os alunos aprendem a partir de suas próprias experiências e não da experiência de outros. Apesar da utilização de casos em sala de aula ser boa, não deixa de ser a experiência alheia. Nas nossas salas eles sentam-se à volta das mesas, com mais cinco ou seis gestores e discutem os seus próprios conceitos de gestão, preocupações, sucessos, falhas, aprendendo assim com as suas próprias vivências.

Muito se fala que o MBA permite ao profissional dar um salto na carreira. Na sua opinião, os profissionais ainda conseguem um aumento de salário após terem esse diploma?
Nos Estados Unidos há indícios de que quando o curso é feito numa escola famosa, existe um aumento na remuneração. Mas quando é feito numa escola menos reconhecida, mesmo após alguns anos, isso não acontece.

Alguns estudos apontam para uma queda no número de inscrições em programas de MBA nos Estados Unidos. Esta é uma tendência mundial?
Quando a economia está mal observa-se um aumento nessa procura, porque as pessoas estão sem emprego e têm ainda algum dinheiro guardado. Então investem num curso de MBA. Se a economia vai bem, às vezes pode haver uma redução na procura. São muitos os factores que influenciam esse movimento.

Mas os cursos de MBA ainda podem ser considerados um diferencial na carreira?
Se ele é um plus ou não na carreira, depende muito do que o profissional quer. Não acho que seja um diferencial quando o objectivo é treinar habilidades de gestão. Eu considero prejudicial para um jovem profissional, quando um curso deixa passar a impressão de que estará a ser treinado para ser um administrador. George Bush tem um MBA, e eu considero o presidente dos EUA um péssimo administrador. A questão é: será que o MBA tem uma parcela de culpa nisso? Eu não sei ao certo, mas suspeito que a impressão deixada pelo curso de MBA da Harvard é que quem o faz é capaz de ler vinte páginas de um caso e então tomar uma decisão importante. E pelo que conheço do Bush, acredito que ele diria: - "Dê-me um caso de vinte páginas que eu responderei com uma guerra". Será que ele aprendeu esse tipo de comportamento em Harvard? O MBA é um plus para o aprendiz de habilidades de negócios, mas não para adquirir competências de gestão. Pelo menos, não da forma que é feito actualmente, porque passa-se uma impressão errada sobre o modelo de gestão.

(fonte: revista digital.com.br)

Posted by ... boost alpha às 14:31
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