sexta-feira, 6 de junho de 2008



A Teoria da Cauda Longa fala de sucessos com públicos pequenos e variados. Isso não existia antes?
Antes da internet, era muito mais difícil aparecer nos massmedia. Hoje, a internet agrega várias subculturas, o que é óptimo para gente como eu, que nunca fiquei satisfeito com a cultura de tamanho único para todos. Eu não via TV, não gostava de rádio, não gostava das minhas opções, e não havia a internet lá atrás. A única opção era algo mais “roots”, uma subcultura de rua. Para mim era a subcultura do punk-rock, para outros era a do hip-hop, ou dos hackers ou das drogas.

Então a internet favoreceu a vida dos artistas underground, que não esperam um grande público?
Tudo o que vê hoje na internet é um eco do espírito original do punk. Tem muito da filosofia do faça você mesmo, antiestabilishment, antieditoras, traços que ganharam força com a produção digital. Em muitos sentidos, a Teoria da Cauda Longa é influenciada pela minha experiência como jovem dos anos 80. Eu não fui à universidade até ter 27 anos. Era um sujeito que largou o ensino médio e depois largou a faculdade. Passei os meus vinte e poucos anos a tocar em bandas de punk-rock. Naquela época, era possível fazer os seus próprios discos em pequenas fábricas, com tiragem de 200 ou 300 cópias. Era possível fazer a própria distribuição, mandar por correio ou levar para tentar vender em lojas pequenas. Dava para tocar até nas garagens, ensaiar lá, comprar guitarras usadas. A internet vem dessa cultura de garagem e a fortaleceu.

Quando eu era criança, nos anos 80, podia conversar com a minha mãe sobre Michael Jackson ou as novelas. Hoje consigo falar com ela sobre Heroes ou Halo 3. Não acha que a cultura de massa tem um lado bom de unir as pessoas? Sim, é verdade. Há prós e contras. Estamos a fragmentar-nos como cultura. Há bem menos hipóteses das pessoas terem os denominadores culturais comuns de há uns anos atrás. É o que acontece quando as pessoas têm mais escolhas. Perdemos as ligações culturais superficiais, como a televisão. Mas, em compensação, ganhamos conexões mais profundas. Eu e você provavelmente não ouvimos o mesmo tipo de música, nem os mesmos programas de TV. Mas vamos supor que estamos a conversar e percebemos que ambos gostamos de... Lego. Os robôs da Lego. Então estabelecemos uma conexão que mais ninguém nesta sala tem, uma conexão bem mais interessante que a de um programa de TV como Lost, que todos veem.

A mídia tem o poder de decidir o que é moda?
Ainda tem. Eu e você escrevemos para grandes revistas e temos muitos leitores. Mas os indivíduos têm cada vez mais força, como nos blogs ou nos grupos de discussão. Tenho mais influência no blog do que na Wired. É claro que a revista é grande: atinge 8 milhões de leitores e eu não chego a tantas pessoas no blog. Mas a minha influência individual é maior lá. Na revista, é um pouco difusa. Eu tenho um contacto muito mais directo com os meus 50 mil leitores do blog.

O seu último livro demorou mais tempo a ser escrito por causa do blog?
Sim. Para mim, o blog serve como uma versão beta das ideias. Você não usa um software que não passou por diversos testes, não lê um artigo científico que não tenha sido examinado pelos pares. Por que seria diferente com um livro? Eu o testo no meu blog, lanço as ideias e as pessoas comentam e trazem coisas novas. Demora mais, mas faz com que o livro seja melhor. Quero escrever muitas coisas que não entrarão no livro só para explorar melhor o argumento.

Mas dá para confiar nos blogs?
Muita gente acha difícil confiar no que está escrito na internet. Mas basta entender que a Wikipedia é a melhor coisa que aconteceu nos últimos 10 anos para acreditar que há muita coisa confiável por lá. O número de pessoas que têm conhecimento, que querem expressar-se e sabem como fazer isso é muito maior que o de escritores ou jornalistas profissionais. A qualidade do produto vai aumentar com a expansão da gama de colaboradores, como acontece na Wikipedia.

Costuma-se dizer que as pessoas hoje estão mais egoístas, mas então como explicar a disposição para participar de ideias colectivas, como a Wikipedia?
É a economia do gratuito, tema do meu próximo livro. Está cada vez mais claro que é um erro acreditar que o dinheiro decide tudo. Sim, as pessoas ainda são guiadas pelo interesse próprio, mas não quer dizer que ele seja monetário. Pode ser por reputação, atenção, expressão, respeito, sentido de comunidade. Há vários motivos para as pessoas se expressarem e contribuírem. Não sabíamos o quão abrangentes e interessantes esses incentivos eram porque não tínhamos dado essas ferramentas antes aos utilizadores. Se alguém dissesse há 10 anos que as pessoas que escrevem e publicam na internet fariam isso de graça, ninguém acreditaria.

O seu próximo livro [provisoriamente intitulado Free, “livre”, em inglês] será gratuito?
Gratuito para download, e outros formatos digitais, mas cobrarei pelo livro físico. O download é gratuito porque o custo é zero. E o preço segue o custo.

Há uma onda de obras sobre tendências, como A Chave do sucesso (Malcolm Gladwell), O Mundo é Plano (Thomas Friedman) e Freakonomics. Os seus livros encaixam-se nessa onda?
Sim. São livros sempre escritos por jornalistas que não são da área de economia. Acho que economia de cultura pop é um tópico interessante e em alta hoje em dia. É uma intersecção de vários assuntos interessantes, é a ciência das nossas vidas.

No próximo livro, diz que o desafio é dar um produto de graça que renda dinheiro com as coisas à sua volta. Como é que isso se explica na prática?
O dinheiro vem com os serviços Premium. A maioria das pessoas usa Skype de graça. Há 80 milhões de utilizadores, mas apenas algumas centenas de milhares pagam pelo Premium, que dá mais benefícios.

A economia do gratuito pode deixar o meio digital e chegar ao meio físico?
Sim. Nos EUA, é muito comum ter um telemóvel de graça. Se fizer um plano de fidelidade de dois anos, tem um telemóvel grátis. A ideia pode ser aplicada para carros gratuitos. O modelo antigo era que o carro era caro e o combustível barato. Agora o combustível está a ficar muito caro e, comparativamente, o carro é barato. Nos EUA, já existe uma empresa que dá o carro de graça e cobra pela exclusividade do combustível. Da mesma forma, a pirataria pode ser uma forma efectiva de marketing. O filme Tropa de Elite, foi largamente pirateado e ainda assim tornou-se um sucesso de bilheteira. Os vendedores de rua têm mais impacto e influenciam mais o consumidor que a publicidade tradicional.

Os cineastas brasileiros reclamam que não há canais de distribuição suficientes. Mas não querem ter seus filmes pirateados.
Qualquer cineasta reclama disso. Como resolver? Esqueça o cinema, vá de dvd. Distribuição na rua é bom se não espera ganhar dinheiro com a venda. Os cineastas brasileiros têm os filmes subsidiados pelo governo, por isso não precisam ganhar dinheiro. Eles fazem o filme pela reputação, pelo impacto no público. Por isso, têm mais é que deixar o mercado decidir. Se as pessoas não querem pagar pelo produto, ok, arranjamos outra maneira de ganhar dinheiro. Afinal, estamos aqui para isso, certo?

(fonte: revista super - entrevista por Pedro Burgos)

Posted by ... boost alpha às 12:41
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