quinta-feira, 10 de abril de 2008



Coisas que se podem aprender com a decadência do negócio da música

A primeira regra é tão importante que eu decidi numerá-la com um zero:

0. A novidade nunca é tão boa como o velho, pelo menos por agora.

Dentro em breve, a novidade será melhor do que o velho. Mas se esperares até lá, será demasiado tarde. Podes discorrer o que quiseres sobre o antigo mas não julgues que ele andará por aqui para sempre. Isso não vai acontecer.

1. Os resultados obtidos no passado não garantem o sucesso no futuro.

Todas as indústrias se transformam e acabam por desaparecer. Lá porque ganhaste dinheiro a fazer algo de um certo modo ontem, não há razão para acreditar que irás ser bem-sucedido nela amanhã.

A indústria da música cresceu a par e passo com os baby boomers. Começando com os Beatles e Dylan, eles não pararam de gerar dinheiro. A co-incidência de um maior poder de compra dos adolescentes ao mesmo tempo que o nascimento do rock, a invenção do transístor e a mudança de hábitos sociais representaram uma longa curva de crescimento.

Em resultado, o negócio da música ergueu sistemas enormes. Eles criaram pesadas organizações de topo, grandes superfícies comerciais especializadas, uma indústria de concertos com enormes perdas de receitas, margens de lucro extremamente elevadas, a MTV e muito mais. Era um sistema bem oleado, mas a questão principal que se deve colocar é: porque é que merecia durar para sempre?

Não merecia. O teu também não.

2. A protecção anti-cópia na era digital é um mero sonho.

Se o teu produto se torna digital, então é bastante provável que ele venha a ser copiado.

Existe um paradoxo no negócio da música que se repete em muitas outras indústrias: tu desejas a ubiquidade e não a obscuridade, contudo a distribuição digital desvaloriza o teu principal produto.

Lembra-te que o negócio da música é aquele que ficou em apuros por subornar disk jockeys para que passassem a sua música na rádio. São eles que gastaram milhões a produzir vídeos (grátis) para a MTV. Porém, quando o canal de transmissão se digitalizou, eles compreenderam que já não existe grande razão para comprar uma versão digital (através de um processo dispendioso e moroso) quando a versão digital é grátis (e mais fácil de obter).

A maior parte dos bens valiosos derivam o seu valor da escassez. O digital muda isso e agora tu podes obter valor com a ubiquidade.

A solução não é manter-se de algum modo obscuro, tentar com que a tua música passe na rádio (digital). A solução consiste em alterares o teu negócio.

Costumavas vender plástico e vinil. Agora, podes vender interactividade e merchandising.

3. A interactividade não pode ser copiada.

Os produtos que são digitais e também incluem interactividade beneficiam com a centralização e comportam-se melhor à medida que o mercado cresce de tamanho (pensa no Facebook ou no Basecamp).

A música é social. A música é actual e efémera. E sobretudo, a música requer a existência de músicos. Os vencedores no negócio da música de amanhã serão os indivíduos e as organizações que criarem comunidades, relacionarem pessoas, espalharem idéias e actuarem como o eixo da roda… indispensáveis e bem remunerados.


4. A permissão é o activo do futuro.

Durante décadas, as empresas não faziam ideia de quem eram os seus utilizadores-finais. Não podiam entrar na loja de discos e saber quem é que estava a comprar o tal álbum dos Rolling Stones, não sabiam quem comprara tal livro ou tal vaso.

Hoje em dia é óbvio que a permissão é um activo a ser explorado. A capacidade (não o direito mas o privilégio) de fornecer mensagens a tempo e horas, pessoais e relevantes às pessoas que as querem receber. O negócio da música tem vindo intransigentemente a recusar esta oportunidade ao longo dos últimos dez anos.

É no entanto interessante que muitos músicos NÃO a tenham recusado. Muitos músicos compreenderam que tudo o que ele precisam para assegurar um nível de vida bastante razoável.é conseguir 10 mil fãs. 10 mil pessoa que aguardam ansiosamente pelo próximo disco, que estão dispostas a fazer campismo para não perderem o próximo concerto. Façam sete novos fãs por dia e em cinco anos terão a vossa vida feita. Uma vida a fazer música para os vossos fãs e não a encontrar fãs para a vossa música.

A oportunidade para a distribuição digital é a seguinte:

Quando podes distribuir algo grátis por via digital esse bem irá espalhar-se (caso seja realmente bom). Se se difundir, podes utilizá-lo como um veículo para permitires que as pessoas entrem em contacto contigo e se registem de modo a dar-te permissão para interagir com elas e mantê-las a par das novidades.

Muitos autores (incluindo eu próprio) conseguiram criar toda uma carreira à volta desta ideia. Assim como os consultores empresariais e até mesmos os vendedores de seguros. Trata-se de encarar a distribuição de artefactos digitais não tanto como uma táctica inconveniente mas como o núcleo dos seus novos negócios.

5. Um consumidor assustado não é um consumidor feliz.

Não devia ter que dizer isto, mas aqui vai: processar pessoas é o mesmo que entrar em guerra. Se vais entrar em guerra contra dezenas de milhares de clientes por cada ano, depois não te surpreendas se eles te começarem a tratar como o inimigo.

6. Esta é mesmo importante: A melhor altura para mudar de modelo de negócio é quando ainda vais a tempo de o fazer.

Não é lá muito fácil para um artista desconhecido começar do início e construir uma carreira segundo um modelo de autopublicação. Não é muito fácil encontrar fãs, um de cada vez, e criar uma audiência. É bastante mais fácil para uma editora discográfica ou um artista de topo fazê-lo. Por isso, o tempo de dar o salto foi ontem. Demasiado tarde. OK, então e que tal se for hoje?

7. Lembra-te da regra de Bob Dylan: Não se trata de um disco mas de um movimento.

Descobrir movimentos foi sempre uma das marcas de sucesso do Bob e dos seus acólitos. Movimentos pacifistas, claro, mas também filmes rock, os Grateful Dead, SACDs, rock cristão e fanboys da Apple. O que o Bob fez (e penso que o fez com sinceridade e não de uma forma calculista) foi procurar grupos que querem estar ligados e ele conseguiu ser o ponto de ligação.

Ao ser receptivo a diferentes escolhas de formato, pontos de vista e momentos, Bob Dylan nunca disse: “Eu gravo discos de vinil que apenas podem ser ouvidos por quem pagar.” Ele compreende de alguma forma que a música é frequentemente a banda sonora de outra coisa.

Penso que o mesmo pode ser verdade para os chefes de cozinha, igrejas, instituições de caridade, políticos e fabricantes de dispositivos médicos. As pessoas pagam um extra por uma história de cada vez.

8. Não entres em pânico quando o modelo de negócio não é tão claro como o anterior.

Nâo é fácil desistir da ideia de fabricar CDs com uma margem bruta de 90 por cento e mudar para um modelo misto de concertos e merchandising, de comunidades, cartões de boas festas, eventos especiais e outras coisas que não parecem passar de truques. Eu sei.

Vence as tuas resistências. Se queres manter-te em actividade é a única opção que tens. A verdade é que daqui a cinco anos não irás estar a vender lá muitos CDs, pois não?

Se existe aqui um negócio, os primeiros irão encontrá-lo e não irá sobrar nada para os restantes.

9. Lê o que está escrito na parede.

Hei, pessoal, mesmo eu que não pertenço ao negócio da música já ando a escrever sobre isto há anos. Até abrir uma editora discográfica há cinco anos atrás só para demonstrar o meu ponto de vista. As indústrias não morrem sem darmos conta. Não é como se vocês não soubessem que este dia estava para chegar. Não é como se vocês não soubessem quem é que deviam chamar (ou contratar).

Não se trata de ter uma grande ideia (quase nunca o é). As grandes ideias andam por aí, livres, no blog ao lado do teu. Não, trata-se de tomar a iniciativa e fazer com que as coisas aconteçam.

A última pessoa a abandonar o actual negócio da música não será a mais inteligente e também não será a mais bem sucedido. Abandonar o barco em primeiro lugar e desbravar o novo território acaba quase sempre por compensar.

10. Não abandones a cauda longa.

Todos os que estão no negócio dos hits pensam que compreendem o segredo: basta fazer hits (…)

Mas é óbvio que quanto mais te esforçares por gerar hits, menos probabilidades terás de produzir quaisquer hits. Filmes, discos, livros… os grandes êxitos parecem ser sempre surpresas. Até mesmo os livros de receitas de cozinha.

Numa era em que é mais barato do que nunca conceber algo, criar algo e fazer chegar algo ao marco, a estratégia mais inteligente consiste antes numa estratégia burra. Mantém os teus custos reduzidos e segue os teus instintos, mesmo quanto toda a gente te diz que estás errado. Faz um trabalho formidável mas não perfeito. Faz chegar coisas ao mercado, o mercado certo e deixa que elas encontrem a sua audiência.

Nunca foi mais errado do que hoje continuares a fazer apenas aquilo que fazias antes. Deves antes encontrar produtos que os teus clientes pretendem. Não os subestimes. Eles são mais fieis nos seus gostos do que tu pensas.

11. Compreende o poder do digital.

Há dez anos atrás era impossível imaginar esta cena: Um miúdo de onze anos levanta-se num Sábado de manhã, pega na sua mesada e de seguida, ainda em pijama, compra uma canção dos Bon Jovi por um dólar.

Compara isto com o trabalho que dá pedir uma boleia, deslocar-se ao centro comercial, encontrar o álbum em questão, encontrar os 14 dólares necessários para o pagar e voltar para casa.

Podes pensar que o teu negócio não se adequa a transacções digitais. Mas muitos adequam-.se. Se tens um negócio que não beneficia com o digital, ele poderá não crescer tão depressa como tu pretendes… Talvez tu precises de encontrar um negócio que tire de facto partido do digital.

12. A fama está desvalorizada

O negócio da música sempre criou celebridades. E cada celebridade lucrou durante décadas com essa fama. O Frank Sinatra está morto e ainda lucra com a fama. O Elvis ainda está vivo e é certo que ele ainda beneficia dessa fama.

O negócio da música não conseguiu até agora tirar proveito dessa fama e captar o valor que ela cria. Muitos negócios possuem agora a capacidade de gerar as suas próprias micro-celebridades. Estes indivíduos captam a atenção e geram confiança, dois elementos fundamentais para quem pretenda fazer crescer os lucros.

13. O valor é criado quando vais de muitos a poucos e vice-versa.

O negócio da música conta com milhares de editora e dezenas de milhares de detentores de copyright. É uma barafunda.

E apenas existe uma loja de música do iTunes. A consolidação recompensa.

Ao mesmo tempo, existem outras indústrias dominadas por algumas grandes empresas e a única forma de gerar lucro é criar dissidências e nichos.

14. Vende subscrições sempre que possível.

Poucas empresas podem ser bem sucedidas a vender subscrições (as revistas são o melhor exemplo) mas quando se pode fazê-lo, o cenário muda por completo. A HBO, por exemplo, consegue gastar o seu dinheiro a criar séries de televisão para os seus espectadores em vez de precisar de ter que encontrar espectadores para cada série.

Para a indústria da música, a maior oportunidade reside em combinar a permissão com as subscrições. As possibilidades são inúmeras. E sei que é difícil de acreditar mas os bons velhos tempos estão ainda por vir.

(fonte: remixtures.com)

Posted by ... boost alpha às 17:16
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