sexta-feira, 9 de maio de 2008



As pessoas procuram, com incerteza, insegurança, e por vezes medo, outras pessoas que partilhem os seus valores. Os seres humanos respiram solidão. E, assim, os jovens sem sentido na vida fazem a jornada da Birmingham industrial, no centro do Reino Unido, para os campos de treino da Al-Qaeda no sopé dos himalaias. Os jovens aderem a cultos ou movimentos extremistas, em vez das carreiras tradicionais de valores, basicamente pelas mesmas razões que se juntam a novas e empreendedoras empresas, em vez de se juntarem a organizações empresariais tradicionais. Estas tribos oferecem algo novo e menos previsível a homens e mulheres com vidas que, de outra forma, nada têm de imprevisível.

Muitas pessoas não se reconhecem a si mesmas na vida light do mundo karaoke. O espelho não reflecte - "Sou apenas um rapaz americano criado com a MTV. Vi todos aqueles míudos dos anúncios a refrigerantes, mas nenhum deles era parecido comigo", canta Steve Earle, músico de rock country na canção John Walker's Blues, onde tenta perceber o que terá feito com que john walker lindh se tenha tornado num taliban americano. As reacções contra a letra da música forçaram Earle a mudar-se com a família para um hotel com segurança.

Todos queremos ser pertença. A humanidade sempre foi e continuará a ser tribal, mas de novas e diferentes maneiras. A proximidade já não basta. O onde já não equivale ao quem. A realidade é que a geografia, a cultura e a religião já não correspondem entre si automaticamente. Por exemplo, há actualmente 15 milhões de muçulmanos a viver na Europa. Em vez dessa correspondência automática, muitas das novas tribos são estruturadas biograficamente: comunidades académicas especializadas, Hare Krishna, clubes de fãs, Aministia Internacional ou jogos de computadores. Consideremos esta ousada hipótese: em 2042, a final do mundial de futebol seria disputada entre os homosexuais unidos e o futebol clube anjos do inferno, em vez de ser entre países como o Brasil e a Itália!

Imaginem a República Popular da Britney Spears. Esta tribo tem uma quantidade de apoiantes superior ao número de habitantes de muitos países da Europa (não obstante a qualidade duvidosa desta cantora). Para a maior parte das organizações empresariais, a República Popular da menina Spears reveste-se de maior importância do que um país como a Bélgica. A República Popular da Britney Spears tem maior poder de compra. É jovem e tem mais significado para muitos do que um estado-nação antiquado.

As novas tribos são comunidades globais constítuidas por pessoas que percebem realmente que têm algo em comum, independentemente da sua nacionalidade. Estes membros biográficos de tribos já se conhecem entre si. Apenas não foram apresentados formalmente. "Ouvimos a mesma música, vemos os mesmos filmes, bebemos os mesmo vodka precisamente às mesmas horas" - refere Tom Ford da Gucci.

Talvez o professor Putnam estivesse a analisar os elementos errados ao concluir que o capital social está em declínio. Talvez as novas tribos sejam apenas diferentes. Em vez de estarem a jogar bowling (a sós), talvez estejam a fazer coisas mais interessantes com pessoas de partes mais distantes do mundo.

Como efeito da biografização, os sistemas de valores não só se alteram em termos de espaço, como também em 2 outras dimensões. Em tempos, eram eternos. Morria-se com os mesmos valores com que se crescia. Hoje em dia, os valores são provisórios. As normas costumavam ser como a nossa pele, agora são mais como camisolas: muitos podemos mudar, por opção. Além disso, a maior parte das pessoas apenas tinha um conjunto de valores. No mundo do capitalismo Karaoke, podemos professar várias crenças em simultâneo. Trata-se de "eu e as minhas tribos" e não de "a tribo". Podemos ser membros da tribo académica, da tribo dos pais, da tribo da arte ou da tribo Filandesa. Claro que a geografia ainda é importante, como quando acontecem os jogos olímpicos. Acrescenta-se a biografia à geografia, sem ser totalmente às custas do espaço. O importante a reter é que, ainda há não muito tempo, vivíamos vidas em mono, agora há algumas pessoas que podem viver em estéreo. Os valores são mais efémeros.

(fonte: Capitalismo Karaoke de Jonas Ridderstrale e Kjell Nordstrom publicado por público)

Posted by ... boost alpha às 11:59
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