segunda-feira, 5 de maio de 2008



Thomas Friedman acha que a India é um país com sorte. Os Estados Unidos ofereceram-lhe a tecnologia que lhe permitiu vender a massa cinzenta.

A Índia pode até ter poucos recursos naturais, mas revelou-se muito boa a fazer uma coisa: “desenvolver a massa cinzenta da população, facultando a instrução a uma fatia relativamente grande das suas elites nos ramos das ciências, engenharia e medicina”.

No seu ‘best seller’, “O mundo é plano”, Thomas L. Friedman usa o caso da Índia para explicar como um fenómeno como o ‘outsourcing’ acabou com as barreiras entre os países e permitiu o desenvolvimento de economias que, até então, eram meras exportadoras de mão-de-obra.

De facto, apesar de ter um elevado número de universitários – graças a um forte investimento na educação, feito a partir de 1951 –, até meados dos anos 90 o país não teve trabalho atractivo para oferecer. “Durante a maior parte dos seus primeiros 50 anos de existência, os licenciados indianos foram dados a preço de saldo à América. Era como se alguém colocasse um dreno cerebral que enchesse em Nova Deli e esvaziasse em Palo Alto”, refere Friedman, cronista do ”New York Times”. De facto, mais de 25 mil licenciados das melhores escolas indianas emigraram para os Estados Unidos.

Quando o mundo ficou plano
Dinakar Singh é um dos mais respeitados gestores de fundos de risco de Wall Street. Os pais licenciaram-se num Instituto Indiano de Tecnologia (IIT) e emigraram para a América, onde nasceu. Por isso, fala com conhecimento de causa: “Durante décadas, foi preciso sair da Índia para se ser um profissional. Agora, qualquer pessoa pode ligar-se ao mundo a partir da Índia. Não é preciso ir para Yale e trabalhar para a Goldman Sachs (como foi o meu caso)”. Mas como é que isso aconteceu? Tecnologia. É que “a Índia nunca poderia ter-se permitido pagar a banda larga para ligar a sua massa cinzenta à alta tecnologia na América – foram os accionistas das empresas americanas que suportaram os custos”, refere Friedman, quando começaram a descobrir que poderiam aproveitar os talentos indianos sem que eles saíssem do país.

No final dos anos 80, a Índia tinha fechado o seu mercado às empresas estrangeiras de tecnologia, como a IBM, mas um visionário como Jack Welch, CEO da General Electric (GE), achou que se as empresas indianas estavam a construir os seus próprios PC e servidores, também o poderiam fazer para a empresa dele. Outras empresas, como a editora norte-americana Simon & Schuster, experimentavam outros modelos: enviavam os seus livros para a Índia e pagavam aos indianos 38 euros por mês (contra os 767 euros por mês nos Estados Unidos) para os converterem em ficheiros digitais.

Quando a economia indiana começou a abrir ao investimento estrangeiro, em 1991, as telecomunicações assumiram um papel importante. As ligações por satélite, primeiro, e o cabo óptico, depois, permitiram às empresas um contacto directo entre a sede e os fornecedores de serviços a milhares de quilómetros de distância. Com que vantagens? Várias. Menores custos, profissionais qualificados que falam Inglês e rapidez. Com a diferença de 12 horas em relação aos Estados Unidos, por exemplo, o trabalho é feito enquanto as empresas estão fechadas, o que encurta para metade os prazos de entrega e resolve problemas sem ser necessário pagar horas extraordinárias.

A crise que deu a independência aos indianos
O Dia da Independência, na Índia, é comemorado a 15 de Agosto. Mas há quem defenda que deveria haver um segundo dia de festejos. Talvez a 31 de Dezembro, ou a 1 de Janeiro. Na opinião de Michael Mandelbaum, professor da universidade norte-americana John Hopkins, foi a crise do ‘bug’ do milénio que deu a verdadeira independência aos indianos, dando-lhes um bom emprego. O período que antecedeu a passagem do milénio foi definitivo para estreitar relações entre a Índia e o mundo e obter um reconhecimento de qualidade. O trabalho de ajuste dos relógios internos dos computadores, para que passassem sãos e salvos a barreira de 1 de Janeiro de 2000, exigia um grande número de engenheiros de ‘software’. Onde é que eles se encontravam? Na Índia, claro. “A indústria indiana de TI conseguiu deixar a sua marca por todo o planeta devido à crise do ‘bug’ do milénio”, como diz Jerry Rao, gestor indiano, fundador e CEO da Mphasis, empresa de ‘outsourcing’, considerada pela Forbes como uma das 100 melhores da região asiática.

(fonte: Patrícia Cascão in Diário Económico)

Posted by ... boost alpha às 12:21
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