segunda-feira, 3 de dezembro de 2007




Da propaganda associada à Exposição Colonial de 1934, no Porto, fazia parte este mapa, organizado por Henrique Galvão, e intitulado “Portugal Não é um País Pequeno”. Seria usado durante quarenta anos pelo Estado Novo para representar, nas salas de aula e instituições do regime, as pretensões imperiais portuguesas, e era efectivamente um logótipo para Portugal como suposta grande potência europeia.

Neste diagrama de aparência didáctica, escondia-se um exemplo cuidado de retórica gráfica. Por um lado, a sobreposição das colónias ao mapa da Europa procurava transformar uma metáfora visual numa operação matemática, o que era reforçado pelos números da legenda, que, no entanto, não correspondiam rigorosamente ao que era mostrado (nas contas, só se comparava – favoravelmente – a superfície do Império Colonial Português com os “principais” países europeus). Por outro, a margem branca e a legenda ao canto enfatizavam o carácter “científico” da representação, certificando que não se tratava de um poster, mas de um mapa.

Finalmente, o título destacava-se sobre a margem superior, distanciando-se da neutralidade aparente do resto, que parecia assim apresentar apenas factos e números. As aspas reforçavam a distância, apresentando o slogan como uma citação, um argumento de uma autoridade indefinida, que a presença do mapa procurava tornar mais científica.

À primeira vista, um mapa não devia contar histórias. No entanto, mesmo a concepção moderna de mapa, com a sua longitude e latitude rigorosamente definidas, foi usada frequentemente para demonstrar que o colonialismo era apenas uma empresa de descoberta, científica e neutra – representava não apenas o que era conhecido, civilizado, mas também aquilo que faltava “civilizar”, sob a forma de áreas vazias, brancas, descrevendo o mundo como uma grelha a preencher, um puzzle por resolver.

Mas havendo várias potências envolvidas no processo, a coisa podia tornar-se complicada. Por exemplo, no final do século XIX, a Inglaterra tinha a intenção de ocupar todo o território entre o Sudão e o Cabo da Boa Esperança, cortando a África de Norte a Sul, o que abalroava com a intenção portuguesa de reunir Angola e Moçambique, expressa no famoso Mapa Cor-de-Rosa. A situação levaria ao Ultimato Inglês de 1890, que obrigaria Portugal a ceder às pretensões territoriais britânicas.

O desfecho afectaria durante bastante tempo a auto-estima portuguesa, e, até certo ponto, o mapa de Galvão seria uma resposta tardia ao Ultimato, procurando resolver através da representação gráfica um complexo de inferioridade crónico face às grandes potências da Europa. Não era propriamente uma declaração, mas uma resposta, uma objecção: “Portugal não é um pais pequeno”.

De acordo com Benedict Anderson, autor de Comunidades Imaginadas – Reflexões Sobre a Origem e Expansão do Nacionalismo, o mapa colonial funcionava como um logótipo, uma representação gráfica do poder colonizador:

Podia ser inteiramente destacad[o] do seu contexto geográfico. Na sua forma final, era possível retirar por completo todas as indicações explicativas: as linhas de longitude e latitude, os topónimos, a sinalização dos mares, dos rios e das montanhas, os vizinhos. Com esta forma, o mapa foi introduzido numa série passível de reprodução infinita, passível de transposição para cartazes, selos oficiais, cabeçalhos de cartas, capas de revista e livros, toalhas ou paredes de hotel. O mapa-logo, reconhecível de imediato e visível por toda a parte, penetrou profundamente na imaginação popular, convertendo-se num emblema poderoso para os nacionalismos anticoloniais emergentes.

(fonte: The ressabiator)

Posted by ... boost alpha às 16:59
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1 comentário:

gaspar disse...

muito estranho, qual a veracidade do mapa?