sexta-feira, 26 de setembro de 2008



O senhor diz no seu livro que o conteúdo de internet produzido pelo cidadão comum gera um culto ao amadorismo. Por que considera isso uma ameaça à nossa cultura?
Andrew Keen – É uma ameaça porque cria a ilusão de que todos somos autores, quando, na verdade, deveríamos ser leitores. Dá às pessoas ilusão sobre as suas habilidades. Todo as pessoas têm algum talento, mas a maioria de nós realmente não tem muito a dizer. Somos melhores a ler um jornal ou assistir a um programa de televisão do que a tentar expressar-nos na internet.

Por que é que afirma que esse fenómeno pode destruir a media tradicional?
Keen – Parte da media tradicional já foi destruída. Estamos a assistir à morte lenta da indústria da música, estamos a assistir à morte lenta dos jornais locais nos Estados Unidos. Não acho que nós viveremos num mundo sem nenhum profissional especializado em agregar informação. A questão central é a ideia de que os consumidores continuarão a pagar por conteúdo. Já concluímos que no mercado fonográfico eles não vão. Mais e mais pessoas pensam que a música deve ser livre e estão a roubá-la. A media tradicional não vai exactamente morrer, mas vai mudar dramaticamente. Os meios de comunicação de massa – que considero democráticos e onde conteúdo de qualidade é acessível pelo preço de US$ 10 ou US$ 15 para comprar um CD, assistir a um filme ou comprar um livro – talvez se tornem coisas do passado. Enquanto os utópicos digitais falam sobre democratização da media e do conteúdo, acredito que a consequência é o aparecimento de uma nova oligarquia. A tão propalada democratização, na verdade, tornará o entretenimento cultural de alta qualidade menos acessível às pessoas comuns.

Entusiastas da web 2.0 dizem que os blogs, independentes de grandes interesses, são uma fonte pura de informação. Por que o senhor discorda?
Keen – Alguns blogs são muito bons. Mas os blogs não são objectivos. Não tenho problemas com a blogosfera se ler o jornal antes. A blogosfera depende da pessoa ser familiarizada com a media sofisticada. Se está familiarizado com notícias, se percebe como a tecnologia funciona, a blogosfera pode ser útil. Mas preocupa-me que, especialmente para os jovens, a blogosfera se torne uma fonte substituta de notícias. Eles acreditam em tudo o que lêem, então preocupo-me que a blogosfera se torne forte numa sociedade em que as crianças não fazem a menor ideia de como ler “através” das notícias. Elas estão a perder a sua capacidade crítica. Sabemos que o The New York Times é pró-Israel e socialmente liberal. Sabemos que o The Wall Street Journal é editorialmente muito conservador. Não há jogos, é óbvio, e com isso consegue ler através. Em muitos blogs, não.

Por que isso é perigoso?
Keen – Nos meios tradicional há meios de checagem. Se não é anônimo, todos sabem quem é, para quem trabalha. No mundo on-line, não sabemos quem são essas pessoas que operam em sites como Digg.com (o site que estabelece um ranking de notícias interessantes com base no voto de internautas), Reddit ou Wikipédia. Elas poderiam estar num programa do governo, numa organização terrorista, numa corporação, como Wall-Mart ou Exxon Mobil, colocando conteúdos no YouTube, na blogosfera, fingindo que isso é independente. Isso deixa-nos à mercê de uma nova oligarquia, num mundo onde é mais difícil checar a verdade que na meios tradicionais.

Alguns especialistas consideram a web 2.0 uma manifestação da “sabedoria da multidão”...
Keen – Na teoria, a sabedoria da multidão pressupõe o envolvimento de todos. Nesse caso, todo as pessoas estariam envolvidas, todas as pessoas estariam a editar a Wikipédia, todas as pessoas estariam a adicionar recomendações no Digg ou no Reddit, todas as pessoas estariam a adicionar críticas na Amazon e talvez isso fosse um bom trabalho. Mas, na realidade, a maioria de nós não faz isso porque não tem tempo, interesse ou energia. O que chamamos de “sabedoria da multidão” tem sido sequestrado por uma pequena elite, por uma oligarquia. Somos atingidos por uma cultura em que as pessoas no controle não são transparentes ou responsáveis. Isso é assustador.

Quem são os membros dessa nova oligarquia?
Keen – Muitos são jornalistas falhados, gente que não conseguiu afirmar-se na media, por isso é ressentida, raivosa. Eles têm fome de poder. Representam um novo tipo de oligarquia que encontrou um meio de obter uma grande parcela de poder. São treinados, podem ter agendas sobre as quais nada sabemos. São tendenciosos, bem formados, jovens, raivosos e radicais. Não têm valores significativos, na minha visão, para a nossa cultura.

Porque questiona a confiabilidade de sites como Wikipédia ou Digg.com?
Keen – A Wikipédia é um dos grandes perigos porque é tão inconfiável, tão pobre, tão falhada em todos os tipos de conteúdo. O Digg é particularmente problemático. A minha forte suspeita é que as recomendações são feitas por grupos de activistas, de miúdos de 20 e poucos anos, com nada melhor para fazer. Não devemos confiar porque não sabemos quem está a recomendar aquilo. Eles são anónimos, podem estar a tentar moldar o nosso gosto de acordo com interesses particulares. Na Wikipédia ninguém sabe quantos editores realmente existem, quem são eles. Como as pessoas têm tempo para editar a Wikipédia ou para continuamente fazer recomendações no Digg? Como pagam as suas prestações ou põem comida na mesa? Não sei, nem você sabe. O modelo do Digg, do Reddit e da Wikipédia presta-se à corrupção. Todos os dias há novas evidências de que as pessoas estão a usar esses sistemas em benefício próprio.

(fonte: revista época)

Posted by ... boost alpha às 17:02
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